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Álbum do dia: The No WTO Combo - Live from the Battle in Seattle



"Live from the Battle of Seattle" é a resposta musical ao famigerado encontro da OMC em Seattle ocorrido em novembro de 1999. Idealizado pelo incansável Jello Biafra, ex-líder do Dead Kennedys e ícone da esquerda americana, e pelo ex-baixista do Nirvana Krist Novoselic, o No WTO Combo realizou um único show e contou com as participações do guitarrista Kim Thayil (ex-Soundgarden) e da baterista Gina (Sweet 75).

A apresentação ocorreu durante uma tumultuada semana marcada por protestos de diversas organizações e pesada repressão policial. Seattle se encontrava sob toque de recolher e as principais avenidas da cidade exalavam gás lacrimogênio. A cidade que é berço de megacorporações como Microsoft e Boeing parecia o local adequado para receber a comitiva da Ordem Mundial do Comércio e os representantes de cerca de 130 países. Mas Seattle também é famosa por exportar artistas como Jimi Hendrix e Kurt Cobain, e, por uma noite, a música tornou-se um grito anti-globalizante.

Três meses antes do encontro da OMC, toda a imprensa internacional já começava a observar com atenção as demonstrações em Seattle. Jello Biafra foi convidado pelo IMC (Centro de Mídia Independente) para dar uma palestra no Benaroya Hall, ao lado de outra vozes anti-globalização como Jim Hightower e o senador Paul Wellstone. O evento aconteceu graças ao apoio irrestrito do prefeito de Seattle Paul Schell e deveria ter o escritor e documentarista Michael Moore como apresentador, mas este não conseguiu chegar a tempo na cidade.

Presentes em debates e manifestações públicas, Novoselic e Biafra chegaram à crucial noite da apresentação com as baterias devidamente carregadas. Porém, as circustâncias sob as quais o No WTO Combo se apresentou foram as mais adversas possíveis. Gina e Kim Thayil encontravam-se do outro lado da cidade e tinham que atravessar uma zona de guerra para chegar ao local do show. A presença de público, ainda que todos os ingressos estivessem esgotados, era uma incógnita. A região central da cidade era palco de quebra-quebra e repressão das forças policiais. Assistindo ao caos generalizado pela TV do estúdio de ensaio, Krist Novoselic sugeriu cancelar a apresentação. Michael Franti, da banda Spearhead, que também tocaria no show-protesto, argumentou que, depois de um dia infernal como aquele, tudo o que as pessoas precisavam era de música que tocasse o espírito. Assim, o tímido Showbox Theatre, sitiado em meio a bombas de gás lacrimogênio e viaturas policiais, foi palco de um show histórico.

Jello Biafra fez um discurso -- no CD, intitulado de "Battle in Seattle" -- sobre sua visão a respeito do grande monstro globalizante OMC (ou WTO, em inglês). A banda subiu ao palco em seguida -- Krist usando máscara de gás -- e executou um clássico do primeiro álbum do Dead Kennedys ("Let's Lynch the Landlord"). Na seqüência, interpretaram 2 canções inéditas escritas por Biafra para a ocasião ("New Feudalism" e "Electronic Plantation"), encerrando a perfomance com a poderosa "Full Metal Jackoff", pesadelo de 17 minutos gravado originalmente por Jello e a banda canadense D.O.A. Mais do que uma apresentação emocionante, o No WTO Combo representou a voz de milhões de pessoas descontentes com os rumos do planeta e o poder absurdo dessa entidade extra-democrática. O CD teve pouca repercussão no Brasil, onde a gravadora Alternative Tentacles não tem representante, mas se você é simpático à causa e admira tanto a trajetória político-musical de Jello Biafra quanto o trabalho do ex-baixista do Nirvana, vale enriquecer sua coleção com "Live from the Battle in Seattle". Dica: clique AQUI para visitar o site da Alternative Tentacles, que está vendendo este álbum a preços promocionais (4 dólares pela versão em vinil e 6 pela versão em CD).

 Escrito por Mr Eddy às 19h15
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A Verdadeira Liga Extraordinária




Um dos maiores arquitetos da música pop da última década - ou o que quer o termo "pop" signifique hoje em dia - nasceu na América do Sul, mais precisamente no pouco falado Suriname, e foi batizado como Patrick Tilton. Ninguém no show bizz o conhece por esse nome, mas se você disser Rudeboy, muita gente vai associar corretamente ao combo holandês Urban Dance Squad. O UDS foi pioneiro na mistura entre rap, rock, guitarra elétrica, samples, distorção e groove. Em 1986 os caras já tocavam com uma formação típica de rock reforçada pelo DJ Donotask (mais famoso como DJ DNA).

É díficil imaginar a aparição de bandas como Rage Against the Machine, por exemplo, se o UDS não tivesse escancarado as portas do gênero com o álbum arrasa-quarteirão "Mental Floss for the Globe", de 1989. O disco foi um estouro nos EUA e a faixa "Deeper Shade of Soul" tornou-se um smash hit internacional. No Brasil, a música entrou até em trilha sonora de novela global!... O rap nervoso "Fast Lane", cujo video-clipe tem participações de Flea (Red Hot Chili Peppers), Ice T, Henry Rollins e Mike Muir (Suicidal Tendencies), também teve boa execução na MTV.

A partir do segundo álbum, "Life 'n' Perspectives of a Genuine Crossover", o Urban Dance Squad começou a cair em certa obscuridade. Obra-prima que mistura virtualmente todos os gêneros no escopo da música pop - destaque para a sensacional "Bureaucrat of Flaccostreet", que tem sítara e guitarras pesadas - o CD não teve grande alcance, mas ainda assim, na esteira do anterior, teve distribuição internacional (saiu no Brasil no finzinho da era vinil).

O terceiro registro, já com a baixa do DJ DNA, é o trabalho mais direto e rockeiro do UDS: "Persona Non Grata". Como sempre, as letras são ácidas, muito bem escritas e críticas ao próprio universo musical. Entre os destaques, a poderosa "Demagogue" e a climática "Alienated" (com magnífica linha de baixo de Silly Sil). Esse foi o último disco dos holandeses a ter certa repercussão. Daí por diante, a banda limitou-se a um sucesso regional, apresentando-se apenas na Europa e deixando de ter seu material lançado nos EUA.

"Planet Ultra", álbum brilhante que recupera o clima de caleidoscópio musical de "Life 'n' Perspectives", virou item de colecionador, dada à dificuldade de conseguir uma cópia importada aqui pelas nossas paragens. O CD tem várias referências de histórias em quadrinhos, nas letras e na concepção gráfica, e traz canções de primeira como a bela "Carbon Copy".

Paralelamente ao seu trabalho com o UDS, Rudeboy emprestou suas letras e rimas ao projeto Junkie XL nos álbuns "Saturday Teenage Kick" e "Big Sound of the Dregs". Para quem não está associando o nome à banda, o JXL assinou o badalado remix de "A Little Less Conversation", de Elvis Presley.

O derradeiro trabalho do Urban Dance Squad marcou o retorno do DJ DNA e, com a formação clássica reunida (o grupo tinha ainda o genial guitarrista Tres Manos e o grande baterista Magic Stick), resultou em outra obra-prima: "Artantica". Disco perfeito e incrivelmente inspirado para uma banda, à época, já com 13 anos de carreira! Um pecado que tenha sido absoluta e completamente ignorado.

Em fevereiro de 2000 - mês triste para a música, que foi marcado ainda pela morte de Dennis Dannel, do Social Distortion - Rudeboy concedeu entrevista à uma FM holandesa e anunciou o fim do UDS. Os integrantes estavam cansados de dar murro em ponta de faca e receber críticas sempre negativas em seu próprio país. E é melhor não esperar uma volta da banda, já que uma de suas letras mais incisivas - da música "Comeback" - ridicularizava os grupos que voltam a tocar para juntar mais alguns trocados ("What a drag to see an old bag sweatin' and fakin' for a comeback", dizia o refrão).
Um pouco antes do epitáfio, a gravadora independente americana Triple X relançou os 4 primeiros discos do UDS nos Estados Unidos. Detalhe: todos eles remasterizados e com um CD ao vivo, das respectivas turnês, de bônus.

Agora você se pergunta: por quê esse post começou falando só do tal Rudeboy e qual a razão do título "A Verdadeira Liga Extraordinária"?? Pois bem, o ex-vocalista e cabeça pensante do Urban Dance Squad tem uma nova criação que atende pelo nome de League of XO Gentlemen (nome inspirado pela graphic novel de Alan Moore, "A Liga Extraordinária"). O CD de estréia, "Smiling at the Claptrap Circuses", lançado pelo conglomerado holandês Idol Media, é, mais uma vez, sensacional!! Para quem estava órfão do quinteto fantástico, o LOXOG é um bálsamo. A receita traz ecos do UDS, mas tem novas idéias musicais e uma abordagem um pouco diferente. O grupo mantém um line-up de banda de rock, com baixo, guitarra e bateria, mas tem ainda dois DJs e, claro, uma porção de samples pelo disco afora.

O League tocou no mega-festival musical SXSW (ou South By SouthWest) que acontece anualmente em Austin, Texas, e reúne cerca de mil (você leu direito: MIL) bandas em menos de uma semana. O LOXOG se apresentou numa noite patrocinada por um órgão cultural holandês ao lado de outros artistas de seu país de origem.


Se você é um dos poucos fãs brasileiros que seguiu a carreira do UDS, vale a pena ralar atrás de uma cópia de "Smiling at the Claptrap Circuses" (não vai ser fácil, mesmo em lojas virtuais!). Músicas como "Pay Your Dues", "Utopian" e a excepcional "Badge of Office" matam saudades dos tempos do esquadrão urbano de dança.

O espaço aqui é muito restrito para discutir com alguma profundidade a proposta musical do League of XO Gentlemen e, especialmente, o importante legado do UDS, mas você pode ir à caça e fazer suas próprias pesquisas sonoras. O site dos caras é: www.leagueofxogentlemen.com. Rock on!!!


 Escrito por Mr Eddy às 20h07
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Zumbis reprocessados



Madrugada dos Mortos
(Dawn of the Dead/2004)
Direção: Zack Snyder
Com: Sarah Polley (Ana), Ving Rhames (Kenneth), Jake Weber (Michael), Mekhi Phifer (Andre), Ty Burrell (Steve), Michael Kelly (CJ), Kevin Zegers (Terry), etc

Nada mais apropriado pra ressuscitar esse blog que falar de um filme de zumbis. “Madrugada dos Mortos”, trabalho de estréia do diretor Zack Snyder, é um remake do segundo filme da trilogia de mortos-vivos de George Romero, realizado em 1978. O primeiro da série, “A Noite dos Mortos Vivos”, de 1968, já havia sido refilmado em 1990 pelo especialista em efeitos especiais Tom Savini, que, curiosamente, faz uma ponta em “Madrugada dos Mortos” como o alucinado xerife que manda “atirar na cabeça e incendiar o corpo”.

Considerando a singularidade da obra de George Romero, que gerou quantidade absurda de imitações, e a boa impressão causada pelo recente “Extermínio” - ótimo zombie movie do escocês Danny Boyle (“Trainspotting”) -, as perspectivas para esse remake eram próximas de zero. Difícil imaginar uma atualização convincente do tema que não esbarrasse na repetição enfadonha de clichês.

“Madrugada dos Mortos”, no entanto, surpreende ao atualizar a história original de Romero e desfilar uma série de cenas impactantes.

A trama é apresentada com recursos modernos (seqüências inteiras fotografadas em digital, efeitos gráficos descolados) e tem uma montagem que abusa da inserção de frames extraídos e super ampliados de telas de TV, uso de música pop e um tipo de violência explícita inspirado nos videogames (cabeças explodindo, impressionantes cenas de atropelamento e colisões automobilísticas, entre outros).

Se o formato em que esse mundo apocalíptico é apresentado parece apropriado, o ritmo é ainda melhor. Em 10 minutos, se tanto, já temos criada uma situação simplória (mulher volta do trabalho, toma banho com o marido, etc) que serve de preparação para a ruptura com a realidade que conhecemos. Daí pra frente, não falta sangue espirrando na tela, imagens do caos urbano e todo aquele clima de “salve-se quem puder”.

Como no original, um pequeno grupo busca refúgio num shopping center e transforma o lugar em seu quartel-general. A maior diferença é que, para quem conhece a trilogia, “Madrugada dos Mortos” não tem conflitos interpessoais assim tão dramáticos. A disputa de poder é, aparentemente, um tema mais caro à George Romero. Na versão do novato Zack Snyder, a questão de grupo só atinge níveis de tensão num primeiro momento, quando os seguranças do shopping mantém os recém-chegados sob a mira de suas espingardas. Em tempos de truculência republicana, parecem adequados comentários como o do chefe de segurança CJ (Michael Kelly), ao assistir pela TV as orientações de um destrambelhado xerife: “A América dá sempre um jeito de resolver as coisas”. É a política do “big stick”, meu caro…

Ainda que não fique claro o tempo de permanência no shopping center, o filme dá espaço para que os personagens transformem numa atividade corriqueira atirar de calibre 12 na cabeça dos mortos-vivos. O ser humano, no fim das contas, se adapta realmente às situações mais bizarras. Essa seqüência, que tem o auxílio do carismático personagem Andy, confinado numa loja de armas, tem ótimas sacadas de humor e despita algumas cenas sinistras que viriam a seguir.

Ainda que previsível, a cena do parto é um dos pontos altos do filme e, não fosse a boa direção, correria o risco de parecer algum sketch da trilogia trash de Larry Cohen – a infame “It’s Alive!” (no Brasil, “Nasce um Monstro”).

É difícil acreditar que os 80 e poucos minutos de “Madrugada dos Mortos” tenham abrigado tantos tiros, sangue, discussões e planos de salvação. O desfecho, mantendo a predileção do seu verdadeiro criador por finais infelizes, guarda ainda algumas ótimas sacadas. Já nos créditos finais do filme, uma câmera digital é encontrada por um dos sobreviventes e fornece material para rápidas inserções, insinuando um epílogo nos moldes do sinistro “A Bruxa de Blair”. Para os mais ligados em cultura e referências pop, a cereja do bolo é a trilha sonora que vai de Johnny Cash – com a apropriada “The Man Comes Around” – a Jim Carrol Band, com a não menos adequada “People Who Died”.




 Escrito por Mr Eddy às 21h48
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